Suicídio de adolescentes: saiba como pais e educadores podem trabalhar a prevenção

Em 10 perguntas e respostas, G1 reúne as principais dúvidas sobre os suicídios. Debate ganhou destaque depois de dois casos de suicídio entre alunos de um colégio de SP.

Dois casos recentes de suicídio entre alunos de um colégio particular de São Paulo levantaram o debate sobre as maneiras de lidar com o tema. Como evitar? Existe algum sinal? Como conversar com meu filho se eu acho que ele está mal? Como conversar se ele é colega de alguém que se suicidou?

G1 ouviu psicanalistas, psiquiatras e especialistas no assunto para tentar ajudar pais, professores e amigos a tratarem do assunto:

1- É normal adolescente ter depressão?

Especialistas explicam que existe um tipo de depressão típica da adolescência, 
mas que não necessariamente configura uma doença ou transtorno mental. 
Ela faz parte dos processos de mudanças fisiológica e emocional dessa faixa etária, 
quando as crianças fazem a transição para a vida adulta e, nesse período, 
passam pela busca da autonomia no mundo sem o apoio integral de seus pais, 
além de experiências de descoberta e conflitos relacionados ao autoconhecimento e à 
construção de sua identidade, definição da profissão, exploração da sexualidade etc.
O psicanalista Mário Corso, especialista no atendimento a adolescentes, 
explica que é justamente nessa fase que o adolescente entra em contato com 
o “mal estar da civilização”.
Segundo ele, nessa época da vida as pessoas se dão conta de que o 
mundo “é um lugar muito sem utopia, sem esperança", o que pode provocar o desespero. 
"É uma depressão típica da adolescência, você se dá conta do peso do mal estar no mundo, 
e isso varia conforme o ambiente político e cultural", diz ele, ressaltando que, atualmente,
 o Brasil e vários países do mundo experimentam momentos de perspectivas pessimistas.

2- Dá para diferenciar sintomas de depressão e da 

adolescência?

De acordo com Corso, nem sempre, já que muitos deles são os mesmos.

“Fora alguém dizer que pensa em se matar, todos os sinais
são sinais típicos da adolescência: ele está mais irritado,
ganha peso, perde peso, fica apático. Qual é o adolescente
que não tem [um desses sintomas? Alguns suicidas
 escondem muito bem. Não tem nenhum termômetro eficaz.”

A chave, segundo os especialistas, é manter um canal de diálogo aberto com os filhos, para
que a observação seja mais eficaz (leia dicas mais abaixo).

3- Todo suicídio é um resultado da depressão?

Não. “O suicídio vem em vários quadros clínicos e às vezes não tem nada a ver com a 
depressão”, ressalta Corso.
“Pode ser uma psicose. Nesse caso, o sujeito não é deprimido. 
E às vezes a depressão é uma defesa contra o suicídio. 
Parece que não tem sentido, mas tem."
Segundo o psiquiatra Elton Kanomata, do hospital Albert Einstein, há ainda outros fatores
 que podem aumentar a chance de depressão. Um deles é a predisposição genética – 
independente da idade. No entanto, só isso, de forma isolada, não deve fazer uma 
pessoa tentar se matar.
“São questões natas da própria pessoa, questões de 
personalidade, de afetividade, e outros comportamentos. 
Uma soma disso, de uma forma bem complexa, 
leva ao suicídio”, disse Kanomata.
Alguns grupos de adolescentes também acabam ficando mais vulneráveis a desenvolver 
um quadro depressivo por questões sociais. Uma pesquisa publicada em dezembro
 de 2017 analisou a resposta de 15 mil adolescentes no ensino médio sobre se eles 
já haviam considerado seriamente o suicídio, se já haviam planejado se matar ou se já haviam
 tentado tirar a própria vida.
De acordo com o estudo, 40% dos adolescentes LGBTs consideraram seriamente o 
suicídio, 35% planejaram e 25% tentaram se matar, contra 15%, 12% e 6% dos
 heterossexuais, respectivamente.A Associação Americana de Psiquiatria já demonstrou que “
os riscos associados a qualquer tratamento coercitivo e violento 
contra homossexuais incluem depressão, suicídio, ansiedade, 
isolamento social e diminuição da capacidade de intimidade.” 
Atacar as causas sociais, nesse caso, também é uma forma de prevenção.

4- O suicídio então é resultado do quê?

Os especialistas divergem em relação aos processos que podem levar ao suicídio.
Corso explica que é "uma cilada" ligar todos os casos de suicídio à depressão. 
"A gente costuma pensar no suicídio como o ponto mais fundo de uma depressão, 
como se houvesse um processo gradual no sujeito, que vai se aproximando de 
uma depressão e o suicídio", diz ele.
Karina Okajima Fukumitsu, psicóloga e suicidologista, acredita que o suicídio é o ápice do 
que ela chama de "processo de morrência", em que a pessoa "já está se sentindo 
desgostosa da vida, sem sentido, e vai definhando existencialmente".

5- Se um suicídio acontece, de quem é a culpa?

Apesar de a Organização Mundial da Saúde (OMS) dizer que a maioria dos 
suicídios poderia ter sido evitada se houvesse tratamento adequado, os especialistas
 evitam endossar esse discurso porque ele carrega uma ideia de culpabilidade.
A corretora de seguros Terezinha do Carmo Guedes Máximo, de 45 anos, está no
 processo de entender que não tem culpa por perder a filha Marina há pouco mais
de um ano. A garota tirou a própria vida quando tinha 19 anos, em meio a vários 
meses de tratamento com diversos psiquiatras e psicólogos. "Ela estava em 
acompanhamento com dois [psicólogos], não era só um. Fazia até sessão de hipnose", 
disse a mãe, que administrava os remédios psiquiátricos de Marina e os guardava 
em um local secreto, além de nunca deixar a filha sozinha.
Mesmo assim, Marina dava sinais de que estava melhorando, falava sobre planos para 
o futuro, para o carnaval que estava próximo. "Ela estava gostando da terapia, era só 
questão de tempo para ficar tudo bem", diz Terezinha. Porém, quando conseguiu ficar 
a sós durante uma hora, a adolescente providenciou a própria morte.
"A parte mais difícil é reaprender a viver sem a pessoa, e ter 
certeza que você não teve culpa. O que pega na gente é a culpa."

6- É possível evitar o suicídio de alguém?

A pergunta não encontra resposta pronta. Os dados da OMS sobre suicídios que podem 
ser evitados são baseados em um estudo se debruçou sobre os detalhes de 15 mil 
suicídios e concluiu que, em 98% dos casos, a vítima tinha algum transtorno mental, 
o que indica que a morte poderia ter sido evitada caso a pessoa recebesse o tratamento
 adequado.
O problema é que oferecer o tratamento adequado é uma ideia mais fácil de 
defender do que de efetivamente colocar em prática. Isso porque cada caso tem 
sua subjetividade própria, todos envolvem uma série de fatores e o tratamento, 
tanto com remédios psiquiátricos quanto com psicoterapia, leva tempo para surtir efeito.
Karina se dedica ao tema há 25 anos, mas reconhece a dificuldade de lidar com o tema.
 “Tenho filhos, sou estudiosa de suicídio, mas não quer dizer que vou conseguir evitar se
 meu filho quiser se matar. Gostaria? Sim, mas é complicado”, explicou ela em entrevista ao G1.

  • “Se isso acontecer novamente, prefiro estar morto.”
  • “A morte poderá resolver essa situação.”
  • “Se ele não me aceitar de volta, eu me matarei.”
  • “Quero sumir. Não aguento mais! Só morrendo mesmo para aguentar.”
VERBAIS INDIRETOS
  • “Se isso acontecer novamente, acabarei com tudo.”
  • “Eu não consigo aguentar mais isso.”
  • “Você sentirá saudades quando eu partir.”
  • “Não estarei aqui quando você voltar.”
  • “Estou cansado da vida, não quero continuar.”
  • “Tudo ficará melhor depois da minha partida.”
  • “Não sou mais quem eu era.”
  • “Logo você não precisará mais se preocupar comigo.”
  • “Ninguém mais precisa de mim.”
  • “Eu sou mesmo um fracassado e inútil. Tudo seria melhor sem mim.”

10- Como agir caso meu filho ou filha apresentar algum

 desses sinais?

A saída, segundo Mário Corso, é que os pais consigam se manter próximos dos filhos, 
superando o obstáculo da construção da autonomia por parte dos adolescentes.

“Os sinais externos, se tu não está ali, tu não vai pegar. 
Mas uma das tarefas da adolescência é poder se virar 
sem os pais. Como tu respeita isso e ao mesmo tempo 
consegue ficar um pouco perto deles para saber o que está acontecendo? 
É um desafio que não tem receita pronta.”
Quando a situação aparentar a necessidade de intervenção, a recomendação da OMS é que 
as pessoas próximas procurem um momento de tranquilidade para conversar com o
ou a adolescente sobre suicídio. O importante, nesse momento, é ouvir com a mente aberta
 e não oferecer julgamentos ou opiniões vazias. Só assim a pessoa se sentirá acolhida e
 a ajuda poderá surtir efeito. Tanto os psiquiatras quanto os psicólogos poderão ajudar, 
nas suas respectivas áreas, no atendimento a esse adolescente. 
"Os dois remédio psiquiátrico e psicoterapia devem andar juntos",
explica Mário Corso. "O remédio auxilia muito mesmo, em casos graves 
de depressão e de angústia. Nesses dois pontos ele faz maravilhas, 
porque ele te dá condições de o tratamento funcionar. Mas a raiz da depressão é o comportamento. 
A causa não é química, mas o efeito é químico. Qualquer neurose tem uma 
correspondência cerebral", explica ele.Para quem não pode pagar por atendimento 
psicológico ou psiquiátrico, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece o serviço por meio 
dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). 

Fonte: G1