O amor de mãe, uma manifestação mística da alma



Carlos Bernardo González Pecotche

Encontramos manifestada a  mística no amor de mãe, puro e excelso. Ninguém poderia dizer que esse sentimento da alma materna contém a menor parcela de caráter religioso; é o culto místico ao sangue, ao prolongamento da própria existência na extensão do tipo psicológico e moral que cada um contém, e que alcançou em sua rude luta evolutiva.

Surpreendemos também a expressão mística no amor filial e, com menos intensidade, no afeto fraterno. O fervor do filho ao venerar seus pais emerge do caráter íntimo e inexprimível da natureza do vínculo, com o aspecto místico surgindo da qualidade incomparável e insubstituível do afeto que o anima.
O próprio amor, que busca no afeto conjugal a mútua identificação do pensar e do sentir, e faz florescer a sensibilidade humana em delicadas expressões de ternura e simpatia, é outra das manifestações místicas que com maior força expressiva emocionam o espírito.

Vejamos agora como a mística, atuando como força constitutiva da natureza humana, influencia a razão para evitar a turbação do juízo e situar o critério dentro do plano da sensatez, toda vez que de seu uso dependam consequências que, direta ou indiretamente, afetem a paz da consciência.
Diante da falta cometida pelo filho, a quem se repreende com severidade, faz com que brote do sentimento a indulgência, que modera o impulso repressivo. O afeto, expressão mística do sentimento, suaviza aqui as reações violentas da razão, fazendo com que esta permaneça inofensiva.

Em seu afã de ser estrita ao julgar, a razão frequentemente esquece que aquilo que ela julga deve ser primeiro relacionado com as próprias e similares circunstâncias. Colocada nessa condição, a tolerância surge instantaneamente, e o juízo é elaborado com equanimidade. Eis aqui a mística atuando sobre a razão, para que ela deixe de ser fria e, tomando o calor fertilizante que emana dos raios da lógica, se manifeste em juízos comedidos, isentos de passionalismo, atenuados pela temperança e pelo senso de justiça.

A atitude mística, para que seja tal, deve inspirar-se no mais alto sentido do bem, do belo e do justo; o contrário é o absurdo, a negação e o extravio. Extraído do livro: O Mecanismo da Vida Consciente.Fundação Logosófica / www.logosofia.org.br