Castro Alves - O poeta Abolicionista

As letras ganham elegante forma, as palavras se transformam em emoções ao revelar sentimentos trancados em secretas mentes solitárias. O “Dia da Poesia Nacional” homenageia o brilhante poeta, Antônio Frederico de Castro Alves que tão bem interpretou o sentimento libertário dos brasileiros daquela época, constituindo-se, ainda nos dias de hoje, em exemplo inspirador de brasileiros que lutam pelo bem comum e enfrentam injustiças que, infelizmente, ainda prevalecem em nossa sociedade.

O grande poeta, fervoroso defensor da abolição escravocrata, em trajetória de apenas 24 anos de vida, moveu mentes e corações, contribuindo decisivamente para cessar aquela odiosa prática em nosso país. Nascido em 14 março de 1847 no interior baiano, na cidade que hoje leva seu nome, Castro Alves fez muito mais do que projetar a literatura brasileira, constituindo-se em exemplo ativo de transformação da história.

O movimento Brasil Sem Violência na Mídia celebra a data apreciando uma de suas principais obras “A canção do africano”.

Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão ...
De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde
Talvez pra não o escutar!

"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!
"O sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!

"Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar ...

"Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro".

O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
Pra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!

O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.

E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!